sexta-feira, 27 de junho de 2014

“Pecado ameniza a consciência, transforma a pessoa num monstro”, Ed René Kivitz


Uma vez que nos voltamos para Cristo, não mais agimos por nós (2 Coríntios, 5:17), somos uma nova criatura, agindo de acordo com a vontade de Deus – ou assim deveríamos. No entanto, falhos como somos, ainda além da aceitação de Cristo, o pecado nos acomete. Somos os alvos preferidos do inimigo, por não sermos presas fáceis, por já conhecermos a verdade, embora nem todos sejam libertos (ou aceitem-na), mas isso não separa ninguém da cruz. O fato de muitas vezes nos sentirmos mais próximos de Deus por nossas atitudes inspiradas no Evangelho (muitas vezes apenas boas ações, não necessariamente boas intenções, e Deus reconhece isso como ninguém) nos leva a sentir com maior pesar quando acometidos.

“Por que nós?”, pensamos. Já reconhecido o Maior Sacrifício, estranhamos as tribulações. Queremos o Céu na terra. Queremos o Deus que se põe a frente de nossos problemas antes mesmo que eles se apresentem e quando notamos essa pequena “falha” Dele, queremos que Ele aja de imediato. Corremos às nossas bíblias, oramos aos prantos, aparecemos no culto, mas nem sempre estamos lá verdadeiramente. Nosso propósito ali é aliviar a alma, sim – mas através da intervenção do Senhor em nosso favor. Em meio à crise, esquecemos que Deus é bom, amor e, principalmente, justo. Ele age como pai e disso, entendamos que Ele deseja o nosso melhor. Perceba, numa justificativa simplista, mas verdadeira, que qualquer outro espermatozoide poderia fecundar o óvulo de sua mãe. Qualquer outro teria uma trajetória que jamais conheceremos – mas era a sua que Deus havia escrito, era a sua que Ele planejou existir, foi a sua que Ele permitiu acontecer. 

Consigo percebê-lo diante de todas as vidas que Ele já criou, de frente à sua obra imperfeita, porém maravilhosa, à imagem e semelhança Dele próprio, e aperfeiçoando cada detalhe, levando cada deformação ao encontro do que faria aquilo valer a pena – e Ele entende isso como ninguém. Não você, não eu; mas Ele, sim. E à frente de um enredo tão deslumbrante, ainda somos capazes, isso sim em perfeito entendimento, de pecar contra Ele. Contra a vontade que o mais ignorante entre nós conhece. Vamos errando pelo dia, pedindo perdão à noite e ao raiar do sol, estamos entregues novamente àquilo que nos mata por dentro: à mentira, ao ego, ao orgulho, à prostituição, aos males da carne, contrário ao Espírito (Gálatas, 5:17-26). Nos envergonhamos em nossos leitos, diante da Graça de Deus, pois ao conhecer Sua natureza, sabemos também que isso permite que sejamos perdoados (Lamentações, 3:22-23), mas abusamos disso com nossa essência inescrupulosa. 

Nos deixamos levar pelo que agora nos dá prazer – e não falo por considerar a vida pós-morte, talvez em profundo ardor e desespero; mas por sofrermos ainda aqui, não apenas com a tentação e o pecado, mas com a consequência de cada um, sem que precisemos morrer para tal. A transgressão individual é suficientemente ruim – mas acostume-se a ela e isso será mortal. Me incluo em todas essas observações e, desde já, rogo a Deus por perdão. Minha intenção não é julgar – eu não falaria tão bem de algo que não conheço e vivo, mas ainda assim, dou graças ao Espírito, pois é Ele quem me possibilita discernir e recomeçar. Escutei certa vez de uma pastora uma frase que jamais esqueci. Uma frase tão simples, que poderia, talvez, sair de pessoas não tão íntimas de Deus, mas que carrega consigo uma verdade esmagadora (João, 14:6): “o mundo não vai mudar”, ela disse, “o diabo não vai mudar, as pessoas não vão se adequar, não espere por isso. No entanto, você tem esse poder. Adiante-se e mude, porque isso é a única condição que pode te salvar”. 

O processo de mudança leva toda uma vida, rodovias que estão repletas de atalhos, desvios, contratempos e outras coisas mais que tentarão te confundir. Você pode decidir parar, descansar um pouco, apreciar a paisagem e, sem se dar conta, esqueceu de acionar o freio de mão e o carro desceu ladeira abaixo... Você pode optar por seguir alguém e fazer uma curva, e descobrir, da pior maneira, que muitos, muitos outros estão tão ou mais perdidos que você – e alguns morrerão sem se dar conta disso. Sem que eu precise dizer, você conhece o caminho. Nós todos conhecemos e, diariamente, fugimos dele. Dá trabalho. Dá a impressão de que não compensa. 

Deus nos presenteia, ainda no ventre, com a capacidade de exercer Seu maior dom e característica: amar. Ainda que nossa natureza pese pro que estamos acostumados, não podemos esquecer que fomos criados por Aquele que representa o amor em todos os sentidos – é Ele que faz dele não apenas um sentimento, mas um mandamento. Sim, um mandamento. É o que nos dá a chance de RECONSIDERAR. O pecado sempre vai existir, como disse a pastora, mas é a nossa postura diante dele que nos aproxima de Deus. É a nossa postura que nos edifica espiritualmente, que consolida a presença do Senhor em nosso interior. 

São as nossas atitudes que nos acostuma ao pecado, mas desta vez, de forma diferente: nos acostuma a estar perto dele, diante dele, sendo sondado por ele, mas recuando, negando, abrindo mão do que é apenas um desejo passageiro; desta vez, plenamente (!!!) conscientes do que aquilo faz a nós – e da decepção que gera no Pai. Escolhemos continuar no carro, cansados, com os vidros fechados, com os olhos fixos na estrada – e com uma vontade imensa de chegar ao destino e ser envolvido pelos abraços dAquele que anseia nosso retorno.